segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Sobre Jesus...

Venho agora abrir um debate sobre o tema. Postem informações adicionais e opinem. No mês passado, iniciou-se a veiculação de uma possível contestação sobre a vida de Jesus. A pesquisa  é liderada por Karen King, pesquisadora da Universidade de Harvard, grande referência no mundo no ramo científico. Tal descoberta divide a opinião de pesquisadores e crenças. Abaixo, comparo a informação veiculada pelo portal Terra e pela revista Veja.

                                      Cientistas acreditam que fragmento faça parte de evangelho desconhecido
                                      Foto: Karen L. King/Harvard University/Divulgação


Fragmento de texto do século 2 fala em "mulher de Jesus"

18 de Setembro de 2012 - 18h21 - Atualizado em 19 de Setembro de 2012 às 18h41.

Um papiro é a primeira evidência de que os cristãos já acreditaram que Jesus foi casado, segundo um estudo da Harvard Divinity School. A descoberta foi anunciada em um congresso no Institutum Patristicum Augustinianum (do Vaticano) em Roma.
"A tradição cristã afirma que Jesus não foi casado, apesar de não haver nenhuma evidência histórica confiável para suportar essa afirmação", diz Karen King, de Harvard. "Este novo texto não prova que Jesus foi casado, mas nos conta que a questão como um todo apenas veio de um vociferador debate sobre sexualidade e casamento. Os cristãos discordavam sobre se era melhor ou não casar, mas isso foi um século depois da morte de Jesus, depois eles apelaram para o estado conjugal de Jesus para suportar suas posições."
Roger Bagnall, diretor do Instituto de Estudo do Mundo Antigo, em Nova York, acredita que o fragmento seja autêntico, baseado em exames do papiro e da caligrafia. Outros especialistas também acreditam na autenticidade baseados em outros dados, como linguagem e gramática, segundo nota de Harvard desta terça-feira. O objeto ainda vai passar por mais testes, especialmente da composição química da tinta.
Um dos lados do fragmento tem oito linhas incompletas de texto, enquanto o outro está muito danificado e apenas três palavras e algumas letras podem ser vistas - inclusive com infravermelho e processamento da imagem em computador. Karen afirma que o pequeno texto fala sobre assuntos como família, disciplina e casamento dos antigos cristãos.
A pesquisadora e a colega AnneMarie Luijendijk, professora de religião em Princeton, acreditam que o fragmento faça parte de um evangelho desconhecido. Um artigo com resultados do estudo do objeto será publicado em janeiro de 2013 no jornal Harvard Theological Review.
O fragmento faz parte de uma coleção particular cujo dono procurou a pesquisadora para que ela traduzisse o texto. Ele deu a Karen uma carta dos anos 80 do professor Gerhard Fecht, da Universidade Livre de Berlim, na qual ele afirmava acreditar que era uma evidência de um possível casamento de Jesus.
A professora de Harvard disse não acreditar em um primeiro momento (em 2010) que fosse autêntico e disse ao dono que não tinha interesse na análise. Contudo, ele persistiu no contato e, em dezembro de 2011, ela o convidou a levar o objeto a Harvard. Em 2012, ela e Luijendijk levaram o papiro a Bagnall que analisou e disse ser possivelmente autêntico.
Pouco se sabe de sua origem, mas acredita-se ser do Egito, já que está escrito em copta - usado pelos cristãos egípcios durante o império romano. Como há texto dos dois lados, os pesquisadores acreditam que faça parte de um livro, ou códex.
Para motivos de referência, o evangelho do qual supostamente faria parte foi chamado de "Evangelho da Mulher de Jesus". A pesquisadora acredita que ele seja da segunda metade do século 2, já que outros evangelhos descobertos recentemente são dessa época. A origem, como dos outros, certamente está atribuída a alguém próximo a Jesus, mas o verdadeiro autor deve ser desconhecido. Eles acreditam ainda que foi escrito originalmente em grego e depois traduzido.
No texto, os cristãos falam de si como uma família, com Deus como pai, seu filho Jesus e membros como irmãos e irmãs. Duas vezes no fragmento, Jesus fala de sua mãe e de sua mulher - sendo que uma das duas ele chama de Maria. Os discípulos discutem se Maria é digna, e Jesus diz que "ela pode ser minha discípula".
Segundo Karen, somente por volta do ano 200 é que foi afirmado, em texto registrado por Clemente de Alexandria, que Jesus não se casou. Na época havia uma discussão se os cristãos deveriam se casar ou viver no celibato. Segundo Clemente, cristãos da época afirmavam que o casamento fora instituído pelo demônio. A pesquisadora afirma que Tertuliano de Cartago, uma ou duas décadas depois, foi quem declarou que Jesus não havia se casado. Ele, contudo, não condenava o casamento - desde que ocorresse apenas uma vez, mesmo em caso de morte de um dos cônjuges.
No final, afirma Karen, a visão dominadora foi a de que o celibato é a mais alta forma de virtude sexual do cristianismo, enquanto permite o casamento, mas apenas para a reprodução. "A descoberta desse novo evangelho oferece uma ocasião para repensar o que achávamos saber ao questionar qual foi o papel que o status conjugal de Jesus teve historicamente nas controvérsias dos cristãos antigos sobre casamento, celibato e família. A tradição preservou apenas aquelas vozes que clamavam que Jesus nunca se casou. O 'Evangelho da Mulher de Jesus' agora mostra que alguns cristãos pensavam de outra forma."

Fonte: Terra

Papiro do século 4 faz referência a 'esposa de Jesus'

Pedaço de papiro do século 4, que seria fragmento de um evangelho apócrifo, traz, pela primeira vez, um trecho que faz referência direta a "esposa de Jesus". Segundo historiadora de Harvard, o texto, no entanto, não prova nada.

Um pedaço de papiro de apenas quatro por oito centímetros pode reacender o debate — e as teorias da conspiração — sobre a vida de Jesus Cristo e, em especial, sobre a possibilidade de ele ter sido casado. Uma historiadora especializada nos primeiros anos do cristianismo recebeu um papiro, que seria fragmento de um evangelho apócrifo, com uma frase nunca antes vista em nenhuma documento antigo: "Jesus disse a eles, 'Minha esposa (...)'." Embora outros evangelhos apócrifos façam referência a um Jesus que teria se relacionado, em especial,  com Maria Madalena, nunca nenhum deles trouxe a palavra 'esposa'.
O papiro é escrito em copta, um antigo idioma egípcio que usa caracteres gregos. A peça, trazida a público por Karen King, historiadora eclesiástica da Universidade Harvard, em um encontro de especialistas em copta em Roma, nesta terça-feira, teria sido escrita no século IV, mas provavelmente é uma cópia de um texto anterior feito por volta de 150 d.C.
Não é prova — Karen já se antecipou à principal discussão que seu estudo provocará: em um texto publicado no site de Harvard, ela afirma que a referência não constitui prova de que Jesus Cristo tinha uma esposa. No entanto, se de fato datar do século 2 d.C., o fragmento indica que o debate sobre se aquele que é considerado filho direto de Deus pela cristandade era ou não celibatário era uma realidade 150 anos após a sua morte.
No artigo publicado no site de Harvard, Karen King batizou o achado de The Gospel of Jesus’s Wife (O Evangelho da Mulher de Jesus, em tradução livre). O texto apócrifo, composto por oito linhas, está totalmente fragmentado, o que dificulta qualquer tentativa de interpretação, segundo a própria historiadora. Mas ela é enfática ao comentar a quarta – e mais importante – linha, na qual se lê claramente: "Jesus disse a eles: 'Minha mulher'."
"Essas palavras não podem significar nada diferente”, disse Karen King ao jornal The New York Times. A quinta linha prossegue: "Ela estará preparada para ser minha discípula", mas é incerto se Jesus estaria se referindo àquela que seria sua esposa ou a outra mulher. A historiadora tampouco acredita na tese de que a esposa em questão fosse Maria Madalena. Em entrevista publicada na Harvard Magazine , ela disse que nos textos antigos as mulheres eram sempre definidas pelo seu vínculo com homens (como na fórmula "Maria, esposa de José"). Jesus e Maria Madalena não são mencionados dessa forma em nenhum documento conhecido. “Toda a informação mais antiga e confiável sobre o Jesus histórico se cala a esse respeito", diz a pesquisadora.
Celibatário — A Igreja Católica sustenta que Jesus Cristo era celibatário. Os quatro evangelhos que narram a vida de Jesus (Mateus, Marcos, Lucas e João) não fazem referência a qualquer companheira. Nos últimos anos, essa tese foi contestada em filmes e livros, a exemplo de A Última Tentação de Cristo, dirigido por Martin Scorsese, o que atraiu duras críticas da Igreja, e do livro O Código Da Vinci, de Dan Brow, inspirado no evangelho apócrifo de Felipe. Mas Karen King diz que seu trabalho não tem nada a ver com a trama. "Não me venha dizer que isso prova que Dan Brown estava certo", disse ao The New York Times.  
De táxi — Karen King conta no site da Harvard Magazine que tomou conhecimento do fragmento em 2010. Estava em poder de um colecionador de artefatos históricos, que não quer se identificar. A princípio, ela desconfiou da autenticidade do documento. O proprietário insistiu num segundo contato um ano depois. Ela concordou em encontrá-lo.
Já com o original em mãos, ela diz ter passado os últimos meses levando o papiro, cuidadosamente preservado entre duas lâminas de vidro, a diversos especialistas. O ceticismo morreu num encontro com Roger Begnall, diretor do Institute for the Study of the Ancient World (ISAW), da Universidade de Nova York, ao qual estavam presentes outros papirologistas. Afirma ter saído do encontro confiando que o fragmento era autêntico. "Não voltamos de metrô. O papiro merecia andar de táxi", afirmou a historiadora ao site de Harvard. Ela também recebeu uma análise positiva de Ariel Shisha-Halevy, especialista em língua copta da Universidade Hebraica de Jerusalém.
O atual dono do papiro ofereceu doá-lo a Harvard caso a universidade compre uma parte de sua coleção. Segundo Karen King, a entidade está considerando a possibilidade.
Apesar da apresentação nesta terça-feira, ainda não foi realizado um teste com carbono-14 na tinta do fragmento, o que permitiria estimar com precisão o quão antigo é o documento. Segundo Karen King, isso poderia danificar o material. Ela planeja testar a idade do papiro por uma técnica conhecida por espectroscopia.

 Fonte: Revista Veja



O blog estará aguardando Janeiro/2013.

domingo, 7 de outubro de 2012

E a mídia brasileira...

Gostaria de fazer uma análise entre algumas notícias veiculadas sobre um mesmo assunto, na última semana; refiro-me a morte do historiador britânico Eric Hobsbawm, aos 95 anos. A perca atingiu milhares de leitores, estudantes e historiadores do mundo inteiro. Irreparável e insubstituível para muitos; para outros, espera-se no mínimo, muito respeito. Autor de mais de 30 livros, dentre eles "Guerra e Paz no século 20" e "A Era dos Extremos", foram frutos de carreira invejável, admirável e extremamente dedicada. Personagem de ideologia ás vezes controversas, porém, que em minha opinião, não tira sua genialidade e jamais o deixará de ser um dos maiores historiadores de todos os tempos. 
Mas infelizmente, não foi isso que vi em uma desrespeitosa reportagem feita pela revista Veja sobre Hobsbawm. Venho aqui para chamar a atenção sobre o cuidado que devemos ter em acreditar em muitas abordagens sem credibilidade, tendenciosas e mentirosas. Abaixo, as três reportagens sobre o assunto:

Algumas imagens de Eric Hobsbawm

  

03/10/2012 - 06h51

'O mundo era mais promissor na confusão criativa de Hobsbawm', diz Nicolau Sevcenko

NICOLAU SEVCENKO
ESPECIAL PARA A FOLHA


Era um evento regular, perfeitamente previsível. Três horas da tarde, o som de passos pesados começava a ecoar nos andares inferiores.
Aos poucos, à medida que avançavam, o assoalho todo começava a tremer. Plóf..., plóf..., plóf..., o ruído aumentava, a trepidação crescente fazia a xícara de chá tremular no pires.
De repente, num estrondo, a porta escancarava e aparecia a figura ofegante do professor Eric Hobsbawm, morto na segunda (1º) aos 95 anos.
Cara vermelha, olhos injetados, à beira de uma apoplexia. Havia vencido heroicamente os três andares através de uma escada estreita e íngreme, ingressando afinal no seu escritório, sala 33 da Tavistock Square nº 35, sede do Instituto de Estudos Latino Americanos da Universidade de Londres.
A direção do IELA havia insistido várias vezes para que ele aceitasse se alojar nos andares inferiores. Nunca aceitou. A sala 33 era uma das maiores e nela ele dispunha sua miríade de livros, em estantes horizontais, pilhas verticais, arcos, pirâmides e labirintos. Sempre sabia encontrar o que precisava.
Vinha ao prédio de sapatos, mas trocava por um par de tênis especialmente reservado para a grande escalada. Chegando, levava alguns minutos para recuperar o fôlego, e logo se punha a trabalhar concentrado. Nunca se queixou do esforço.
Tive o raro privilégio de dividir aquela sala com o mestre entre fins da década de 80 e início de 90. Foram anos decisivos, o colapso dos regimes da Europa Oriental desafiava suas convicções e o melhor de suas energias intelectuais.
O telefone não parava: jornalistas, editores, intelectuais, ativistas, revolucionários, alunos, artistas, autoridades, gentes anônimas que liam seus artigos. Atendia a todos com a mesma atenção e paciência. Não tinha secretária.
Acabada a sessão telefônica, desconectava discretamente o aparelho e se dedicava a escolher dentre os livros recebidos aqueles que, como editor, distribuiria dentre os colaboradores da revista do partido para serem resenhados.
Depois, vinha o momento que eu mais ansiava: ele se punha a comentar os tais livros comigo, um mero pretexto para organizar mentalmente suas ideias, esboçando a edição da revista.
Gentilmente, me perguntava sobre o andamento das minhas pesquisas, fornecendo indicações preciosas, rebuscando dentre seu enorme acervo tudo o que considerava relevante para o desenvolvimento do trabalho. Não raro, me trazia livros de sua biblioteca pessoal.
Sua generosidade era espontânea e genuína.
Ele conhecia muito bem o objeto da minha pesquisa, a transformação cultural dramática de São Paulo nos anos 1920, tema do que seria o livro "Orfeu Extático na Metrópole". Havia ali uma crítica explícita a um modelo de política de massas que dissentia abertamente de suas concepções políticas.
Expondo suas críticas e discordâncias, ele me acossava como um grande mestre diante de um calouro num tabuleiro de xadrez. Mas jamais me deu o xeque-mate. Seu respeito pelos interlocutores era do tamanho da sua generosidade.
Divergindo, ele me ajudou e fertilizou meu trabalho como se eu fora seu dileto discípulo. Não era só comigo.
Quem entrava naquela sala tinha acesso imediato ao melhor da sua privilegiada inteligência crítica, sua erudição infinita e a inspiração da sua sólida integridade intelectual.
Num mundo de moralidade dissolvente e corrosão sistemática do conhecimento erudito, a ausência de Eric Hobsbawm soa como um colapso.
O mundo era maior e mais promissor na confusão criativa da sala 33, Tavistock Square nº 35, do que será agora, para sempre fora dela. 

NICOLAU SEVCENKO é professor titular de línguas e literaturas neo-latinas da Universidade Harvard e professor aposentado de história da cultura da Universidade de São Paulo 



 04/10/2012 - 08:30

A imperdoável cegueira ideológica de Eric Hobsbawm

Maior historiador esquerdista de língua inglesa, Eric Hobsbawn, morto na última segunda-feira, aos 95 anos, foi um idiota moral. Essa é a verdade incômoda que os necrológios, publicados em profusão, quase sempre fizeram questão de ignorar. Marxista irredutível, Hobsbawm chegou a defender o indefensável: numa entrevista que chocou leitores, críticos e colegas, alegou que o assassinato de milhões orquestrado por Stalin na União Soviética teria valido a pena se dele tivesse resultado uma "genuína sociedade comunista". Hobsbawn foi de fato um historiador talentoso. Nunca fez doutrinação rasteira em suas obras. Mas o talento de historiador, é forçoso dizer, ficará para sempre manchado pela cegueira com que ele se agarrou a uma posição ideológica insustentável.
Essa posição lança sombras sobre uma de suas obras mais famosas, A Era dos Extremos, livro de 1994 que, depois da trilogia sobre o século XIX composta pelos livros A Era das Revoluções, A Era do Capital e A Era dos Impérios, lançados entre 1962 e 1987, se dedica a investigar a história do século XX –  quando Hitler matou milhões em seus campos de concentração e os regimes comunistas empreenderam os seus próprios extermínios. Hobsbawm se abstém de condenar os crimes soviéticos, embora o faça, com toda a ênfase, com relação aos nazistas.

Outro eminente historiador de origem britânica, Tony Judt (1948-2010), professor de história da New York University que fez uma longa resenha do livro de memórias de Hobsbawm,
Tempos Interessantes, advertia já em 2008 que o colega ficaria marcado por sua posição política. “Ele pagará um preço: ser lembrado não como ‘o’ historiador, mas como o historiador comunista”, disse em entrevista ao jornal The New York Times. Em texto publicado pela revista The New Criterion, o escritor David Pryce-Jones também apontou o prejuízo da ligação de Hobsbawm com o pensamento marxista. “A devoção ao comunismo destruiu o historiador como um pensador ou um intérprete de fatos.”

O entusiasmo com a revolução bolchevique, aliás, não foi a única fonte de tropeços morais para Hobsbawm. A conflituosa relação com as raízes judaicas – seu sobrenome deriva de Hobsbaum, modificado por um erro de grafia – o levou a apoiar o nacionalismo palestino e, ao mesmo tempo, a negar igual tratamento a Israel.


Biografia –
A história pessoal de Hobsbawm ajuda a entender sua adesão ao marxismo. Nascido no ano da Revolução Russa, 1917, em Alexandria, no Egito, ele se mudou na infância para Viena, terra natal materna, onde perdeu ainda adolescente tanto a mãe quanto o pai, um fracassado negociante inglês que permitiu a ele ter desde cedo o passaporte britânico. Criado por parentes em Berlim na época em que Hitler ascendia ao poder, ele viu no comunismo uma contrapartida ao nazismo.

Da Alemanha, Hobsbawn seguiu para a Inglaterra. Durante a guerra, serviu numa unidade de sapeadores quase que inteiramente formada por soldados de origem operária - e daí viria, mais que a simpatia, uma espécie de identificação com aquela que, segundo Marx, era a classe revolucionária. Ele estudou em Cambridge, e se filiou ao Partido Comunista, ao qual se aferraria por anos. Nem mesmo após a denúncia das atrocidades stalinistas feita por Nikita Khrushchov em 1956, quando diversos intelectuais romperam com o comunismo, ele deixou o partido.


Hobsbawm só desistiu de defender com unhas e dentes o sistema após a queda do Muro de Berlim, em 1989. “Eu não queria romper com a tradição que era a minha vida e com o que eu pensava quando me envolvi com ela. Ainda acho que era uma grande causa, a causa da emancipação da humanidade. Talvez nós tenhamos ido pelo caminho errado, talvez tenhamos montado o cavalo errado, mas você tem de permanecer na corrida, caso contrário, a vida não vale a pena ser vivida”, disse ele ao
The New York Times, em 2003, em uma das poucas declarações em que admitia as falhas do comunismo – porém, sem dar o braço verdadeiramente a torcer.

Fonte: www.veja.abril.com.br


RESPOSTA DA ANPUH AO ARTIGO DA VEJA

Resposta à revista VEJA

Eric Hobsbawm: um dos maiores intelectuais do século XX
Na última segunda-feira, dia 1 de outubro, faleceu o historiador inglês Eric Hobsbawm. Intelectual marxista, foi responsável por vasta obra a respeito da formação do capitalismo, do nascimento da classe operária, das culturas do mundo contemporâneo, bem como das perspectivas para o pensamento de esquerda no século XXI. Hobsbawm, com uma obra dotada de rigor, criatividade e profundo conhecimento empírico dos temas que tratava, formou gerações de intelectuais. Ao lado de E. P. Thompson e Christopher Hill liderou a geração de historiadores marxistas ingleses que superaram o doutrinarismo e a ortodoxia dominantes quando do apogeu do stalinismo. Deu voz aos homens e mulheres que sequer sabiam escrever. Que sequer imaginavam que, em suas greves, motins ou mesmo festas que organizavam, estavam a fazer História. Entendeu assim, o cotidiano e as estratégias de vida daqueles milhares que viveram as agruras do desenvolvimento capitalista. Mas Hobsbawm não foi apenas um “acadêmico”, no sentido de reduzir sua ação aos limites da sala de aula ou da pesquisa documental. Fiel à tradição do “intelectual” como divulgador de opiniões, desde Émile Zola, Hobsbawm defendeu teses, assinou manifestos e escolheu um lado. Empenhou-se desta forma por um mundo que considerava mais justo, mais democrático e mais humano. Claro está que, autor de obra tão diversa, nem sempre se concordará com suas afirmações, suas teses ou perspectivas de futuro. Esse é o desiderato de todo homem formulador de ideias. Como disse Hegel, a importância de um homem deve ser medida pela importância por ele adquirida no tempo em que viveu. E não há duvidas que, eivado de contradições, Hobsbawm é um dos homens mais importantes do século XX.

Eis que, no entanto, a Revista Veja reduz o historiador à condição de “idiota moral” (cf. o texto “A imperdoável cegueira ideológica da Hobsbawm”, publicado em www.veja.abril.com.br). Trata-se de um julgamento barato e despropositado a respeito de um dos maiores intelectuais do século XX. Veja desconsidera a contradição que é inerente aos homens. E se esquece do compromisso de Hobsbawm com a democracia, inclusive quando da queda dos regimes soviéticos, de sua preocupação com a paz e com o pluralismo. A Associação Nacional de História (ANPUH-Brasil) repudia veementemente o tratamento desrespeitoso, irresponsável e, sim, ideológico, deste cada vez mais desacreditado veículo de informação. O tratamento desrespeitoso é dado logo no início do texto “historiador esquerdista”, dito de forma pejorativa e completamente destituído de conteúdo. E é assim em toda a “análise” acerca do falecido historiador. Nós, historiadores, sabemos que os homens são lembrados com suas contradições, seus erros e seus acertos. Seguramente Hobsbawm será, inclusive, criticado por muitos de nós. E defendido por outros tantos. E ainda existirão aqueles que o verão como exemplo de um tempo dotado de ambiguidades, de certezas e dúvidas que se entrelaçam. Como historiador e como cidadão do mundo. Talvez Veja, tão empobrecida em sua análise, imagine o mundo separado em coerências absolutas: o bem e o mal. E se assim for, poderá ser ela, Veja, lembrada como de fato é: medíocre, pequena e mal intencionada.

São Paulo, 05 de outubro de 2012

Diretoria da Associação Nacional de História
ANPUH-Brasil
Gestão 2011-2013
 
 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Relíquias do povo Pochteca

Escavações arqueológicas no México
revelam ossadas e objetos cotidianos
de casta de influentes mercadores
da época dos Astecas

por Marco Antonio Barbosa

Instrumentos musicais, potes de cerâmica, queimadores de incenso... e os restos mortais de 15 pessoas (e um cachorro), tudo possivelmente datado do século XIII. Foram essas as descobertas de uma escavação arqueológica realizada num canteiro de obras nos subúrbios da Cidade do México.

Acredita-se que os esqueletos e os objetos, revelados por pesquisadores do Instituto Nacional de Antropologia e História do México (Inah), sejam resquícios do povo Pochteca, casta de mercadores da era asteca que foram muito influente entre 1200 e 1300. Por suas habilidades mercantis, os pochtecas detinham um elevado status social.

A maioria dos restos mortais, datados de pelo menos 700 anos, pertencia a crianças – o cachorro provavelmente foi sacrificado para acompanhar seu jovem dono no túmulo. Alejandra Jasso Peña, pesquisadora do Inah, declarou que o local da escavação, que estava sendo preparado para receber um condomínio de cinco prédios, pode ter sido sede de um importante centro cerimonial da nação Tepanec, que ocupou o atual território do México entre os séculos 12 e 15.

As pesquisas arqueológicas do Inah no local da escavação vão prosseguir pelos próximos meses.

Marco Antonio Barbosa é jornalista especializado em cultura e entretenimento

Fonte: Revista História Viva

O tempo está acabando...






   Desde a chegada dos portugueses no Brasil, em 1500, podemos perceber que o Estado nunca foi o maior interessado na defesa do meio ambiente.
   As três primeiras décadas foram marcadas pela exploração do pau-brasil, produto altamente lucrativo na Europa, principalmente no mercado de tecido.A seguir, a produção de açucar e expansão da pecuária acentuam a devastação.
   Mas nossa atitude apenas regride com relação ao meio ambiente. Um quarto do desmatamento total da Amazônia (isso mesmo, 25%!), por exemplo, aconteceu no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso; Mais de 157 mil km2 de floresta foram destruídos nesse período. 
   É descaradamente perceptível a presença de algo muito superior à essa questão: a ganância. Infelizmente, o dinheiro está muito acima das boas intenções de preservação e cuidados com nossa fauna e flora; o homem não desconhece a importância destas mas despreza-as quando o assunto é consumismo. O lucro torna-se mais importante, inclusive, mais que o próprio homem e sua sobrevivência.

Fontes:
http://www.greenpeace.org/brasil/pt/

http://www.ibama.gov.br

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