Gostaria de fazer uma análise entre algumas notícias veiculadas sobre um mesmo assunto, na última semana; refiro-me a morte do historiador britânico Eric Hobsbawm, aos 95 anos. A perca atingiu milhares de leitores, estudantes e historiadores do mundo inteiro. Irreparável e insubstituível para muitos; para outros, espera-se no mínimo, muito respeito. Autor de mais de 30 livros, dentre eles "Guerra e Paz no século 20" e "A Era dos Extremos", foram frutos de carreira invejável, admirável e extremamente dedicada. Personagem de ideologia ás vezes controversas, porém, que em minha opinião, não tira sua genialidade e jamais o deixará de ser um dos maiores historiadores de todos os tempos.
Mas infelizmente, não foi isso que vi em uma desrespeitosa reportagem feita pela revista Veja sobre Hobsbawm. Venho aqui para chamar a atenção sobre o cuidado que devemos ter em acreditar em muitas abordagens sem credibilidade, tendenciosas e mentirosas. Abaixo, as três reportagens sobre o assunto:
Algumas imagens de Eric Hobsbawm
03/10/2012 - 06h51
'O mundo era mais promissor na confusão criativa de Hobsbawm', diz Nicolau Sevcenko
NICOLAU SEVCENKO
ESPECIAL PARA A FOLHA
04/10/2012 - 08:30
ESPECIAL PARA A FOLHA
Era um evento regular, perfeitamente previsível. Três horas da tarde, o
som de passos pesados começava a ecoar nos andares inferiores.
Aos poucos, à medida que avançavam, o assoalho todo começava a tremer.
Plóf..., plóf..., plóf..., o ruído aumentava, a trepidação crescente
fazia a xícara de chá tremular no pires.
De repente, num estrondo, a porta escancarava e aparecia a figura
ofegante do professor Eric Hobsbawm, morto na segunda (1º) aos 95 anos.
Cara vermelha, olhos injetados, à beira de uma apoplexia. Havia vencido
heroicamente os três andares através de uma escada estreita e íngreme,
ingressando afinal no seu escritório, sala 33 da Tavistock Square nº 35,
sede do Instituto de Estudos Latino Americanos da Universidade de
Londres.
A direção do IELA havia insistido várias vezes para que ele aceitasse se
alojar nos andares inferiores. Nunca aceitou. A sala 33 era uma das
maiores e nela ele dispunha sua miríade de livros, em estantes
horizontais, pilhas verticais, arcos, pirâmides e labirintos. Sempre
sabia encontrar o que precisava.
Vinha ao prédio de sapatos, mas trocava por um par de tênis
especialmente reservado para a grande escalada. Chegando, levava alguns
minutos para recuperar o fôlego, e logo se punha a trabalhar
concentrado. Nunca se queixou do esforço.
Tive o raro privilégio de dividir aquela sala com o mestre entre fins da
década de 80 e início de 90. Foram anos decisivos, o colapso dos
regimes da Europa Oriental desafiava suas convicções e o melhor de suas
energias intelectuais.
O telefone não parava: jornalistas, editores, intelectuais, ativistas,
revolucionários, alunos, artistas, autoridades, gentes anônimas que liam
seus artigos. Atendia a todos com a mesma atenção e paciência. Não
tinha secretária.
Acabada a sessão telefônica, desconectava discretamente o aparelho e se
dedicava a escolher dentre os livros recebidos aqueles que, como editor,
distribuiria dentre os colaboradores da revista do partido para serem
resenhados.
Depois, vinha o momento que eu mais ansiava: ele se punha a comentar os
tais livros comigo, um mero pretexto para organizar mentalmente suas
ideias, esboçando a edição da revista.
Gentilmente, me perguntava sobre o andamento das minhas pesquisas,
fornecendo indicações preciosas, rebuscando dentre seu enorme acervo
tudo o que considerava relevante para o desenvolvimento do trabalho. Não
raro, me trazia livros de sua biblioteca pessoal.
Sua generosidade era espontânea e genuína.
Ele conhecia muito bem o objeto da minha pesquisa, a transformação
cultural dramática de São Paulo nos anos 1920, tema do que seria o livro
"Orfeu Extático na Metrópole". Havia ali uma crítica explícita a um
modelo de política de massas que dissentia abertamente de suas
concepções políticas.
Expondo suas críticas e discordâncias, ele me acossava como um grande
mestre diante de um calouro num tabuleiro de xadrez. Mas jamais me deu o
xeque-mate. Seu respeito pelos interlocutores era do tamanho da sua
generosidade.
Divergindo, ele me ajudou e fertilizou meu trabalho como se eu fora seu dileto discípulo. Não era só comigo.
Quem entrava naquela sala tinha acesso imediato ao melhor da sua
privilegiada inteligência crítica, sua erudição infinita e a inspiração
da sua sólida integridade intelectual.
Num mundo de moralidade dissolvente e corrosão sistemática do
conhecimento erudito, a ausência de Eric Hobsbawm soa como um colapso.
O mundo era maior e mais promissor na confusão criativa da sala 33,
Tavistock Square nº 35, do que será agora, para sempre fora dela.
NICOLAU SEVCENKO é professor titular de línguas e literaturas
neo-latinas da Universidade Harvard e professor aposentado de história
da cultura da Universidade de São Paulo
Fonte: http://www.folha.uol.com.br
04/10/2012 - 08:30
A imperdoável cegueira ideológica de Eric Hobsbawm
Maior historiador esquerdista de língua inglesa, Eric Hobsbawn, morto na última segunda-feira, aos 95 anos,
foi um idiota moral. Essa é a verdade incômoda que os necrológios,
publicados em profusão, quase sempre fizeram questão de ignorar.
Marxista irredutível, Hobsbawm chegou a defender o indefensável: numa
entrevista que chocou leitores, críticos e colegas, alegou que o
assassinato de milhões orquestrado por Stalin na União Soviética teria
valido a pena se dele tivesse resultado uma "genuína sociedade
comunista". Hobsbawn foi de fato um historiador talentoso. Nunca fez
doutrinação rasteira em suas obras. Mas o talento de historiador, é
forçoso dizer, ficará para sempre manchado pela cegueira com que ele se
agarrou a uma posição ideológica insustentável.
Essa posição lança sombras sobre uma de suas obras mais famosas, A Era dos Extremos, livro de 1994 que, depois da trilogia sobre o século XIX composta pelos livros A Era das Revoluções, A Era do Capital e A Era dos Impérios,
lançados entre 1962 e 1987, se dedica a investigar a história do século
XX – quando Hitler matou milhões em seus campos de concentração e os
regimes comunistas empreenderam os seus próprios extermínios. Hobsbawm
se abstém de condenar os crimes soviéticos, embora o faça, com toda a
ênfase, com relação aos nazistas.
Outro eminente historiador de origem britânica, Tony Judt (1948-2010), professor de história da New York University que fez uma longa resenha do livro de memórias de Hobsbawm, Tempos Interessantes, advertia já em 2008 que o colega ficaria marcado por sua posição política. “Ele pagará um preço: ser lembrado não como ‘o’ historiador, mas como o historiador comunista”, disse em entrevista ao jornal The New York Times. Em texto publicado pela revista The New Criterion, o escritor David Pryce-Jones também apontou o prejuízo da ligação de Hobsbawm com o pensamento marxista. “A devoção ao comunismo destruiu o historiador como um pensador ou um intérprete de fatos.”
O entusiasmo com a revolução bolchevique, aliás, não foi a única fonte de tropeços morais para Hobsbawm. A conflituosa relação com as raízes judaicas – seu sobrenome deriva de Hobsbaum, modificado por um erro de grafia – o levou a apoiar o nacionalismo palestino e, ao mesmo tempo, a negar igual tratamento a Israel.
Biografia – A história pessoal de Hobsbawm ajuda a entender sua adesão ao marxismo. Nascido no ano da Revolução Russa, 1917, em Alexandria, no Egito, ele se mudou na infância para Viena, terra natal materna, onde perdeu ainda adolescente tanto a mãe quanto o pai, um fracassado negociante inglês que permitiu a ele ter desde cedo o passaporte britânico. Criado por parentes em Berlim na época em que Hitler ascendia ao poder, ele viu no comunismo uma contrapartida ao nazismo.
Da Alemanha, Hobsbawn seguiu para a Inglaterra. Durante a guerra, serviu numa unidade de sapeadores quase que inteiramente formada por soldados de origem operária - e daí viria, mais que a simpatia, uma espécie de identificação com aquela que, segundo Marx, era a classe revolucionária. Ele estudou em Cambridge, e se filiou ao Partido Comunista, ao qual se aferraria por anos. Nem mesmo após a denúncia das atrocidades stalinistas feita por Nikita Khrushchov em 1956, quando diversos intelectuais romperam com o comunismo, ele deixou o partido.
Hobsbawm só desistiu de defender com unhas e dentes o sistema após a queda do Muro de Berlim, em 1989. “Eu não queria romper com a tradição que era a minha vida e com o que eu pensava quando me envolvi com ela. Ainda acho que era uma grande causa, a causa da emancipação da humanidade. Talvez nós tenhamos ido pelo caminho errado, talvez tenhamos montado o cavalo errado, mas você tem de permanecer na corrida, caso contrário, a vida não vale a pena ser vivida”, disse ele ao The New York Times, em 2003, em uma das poucas declarações em que admitia as falhas do comunismo – porém, sem dar o braço verdadeiramente a torcer.
Outro eminente historiador de origem britânica, Tony Judt (1948-2010), professor de história da New York University que fez uma longa resenha do livro de memórias de Hobsbawm, Tempos Interessantes, advertia já em 2008 que o colega ficaria marcado por sua posição política. “Ele pagará um preço: ser lembrado não como ‘o’ historiador, mas como o historiador comunista”, disse em entrevista ao jornal The New York Times. Em texto publicado pela revista The New Criterion, o escritor David Pryce-Jones também apontou o prejuízo da ligação de Hobsbawm com o pensamento marxista. “A devoção ao comunismo destruiu o historiador como um pensador ou um intérprete de fatos.”
O entusiasmo com a revolução bolchevique, aliás, não foi a única fonte de tropeços morais para Hobsbawm. A conflituosa relação com as raízes judaicas – seu sobrenome deriva de Hobsbaum, modificado por um erro de grafia – o levou a apoiar o nacionalismo palestino e, ao mesmo tempo, a negar igual tratamento a Israel.
Biografia – A história pessoal de Hobsbawm ajuda a entender sua adesão ao marxismo. Nascido no ano da Revolução Russa, 1917, em Alexandria, no Egito, ele se mudou na infância para Viena, terra natal materna, onde perdeu ainda adolescente tanto a mãe quanto o pai, um fracassado negociante inglês que permitiu a ele ter desde cedo o passaporte britânico. Criado por parentes em Berlim na época em que Hitler ascendia ao poder, ele viu no comunismo uma contrapartida ao nazismo.
Da Alemanha, Hobsbawn seguiu para a Inglaterra. Durante a guerra, serviu numa unidade de sapeadores quase que inteiramente formada por soldados de origem operária - e daí viria, mais que a simpatia, uma espécie de identificação com aquela que, segundo Marx, era a classe revolucionária. Ele estudou em Cambridge, e se filiou ao Partido Comunista, ao qual se aferraria por anos. Nem mesmo após a denúncia das atrocidades stalinistas feita por Nikita Khrushchov em 1956, quando diversos intelectuais romperam com o comunismo, ele deixou o partido.
Hobsbawm só desistiu de defender com unhas e dentes o sistema após a queda do Muro de Berlim, em 1989. “Eu não queria romper com a tradição que era a minha vida e com o que eu pensava quando me envolvi com ela. Ainda acho que era uma grande causa, a causa da emancipação da humanidade. Talvez nós tenhamos ido pelo caminho errado, talvez tenhamos montado o cavalo errado, mas você tem de permanecer na corrida, caso contrário, a vida não vale a pena ser vivida”, disse ele ao The New York Times, em 2003, em uma das poucas declarações em que admitia as falhas do comunismo – porém, sem dar o braço verdadeiramente a torcer.


Eis que, no entanto, a Revista Veja reduz o historiador à condição de “idiota moral” ,“A imperdoável cegueira ideológica da Hobsbawm” ?????
ResponderExcluirA revista veja chega ser patetica.Mas o pior eh que faz a cabeça de tantos brasileiros...